Entrevista com Paulo Gaudêncio

Há anos, acompanho a carreira do psiquiatra Paulo Gaudêncio e suas experiências no mundo corporativo. Sou um admirador da tranquilidade, precisão e objetividade de sua análise do mundo das empresas contemporâneo.

O objetivo deste blog, como colocado desde sua criação, é abrir um espaço para reflexão das mazelas do mundo corporativo. Um mundo de menos emprego e mais trabalho. A entrevista abaixo, fala sobre isso.

 

 

Verdades e mentiras sobre qualidade de vida


Cerca de 70% dos brasileiros sofrem com os níveis elevados de stress, de acordo com a Isma-BR (International Stress Management Association). A grande maioria, pelas pressões do ambiente de trabalho. São pessoas que lutam contra a insegurança, sofrem com a ansiedade e vivem noites de insônia; isso sem falar das conseqüências físicas: pressão alta, excesso de peso, problemas gastrointestinais… Por sua vez, as empresas lançam programas na tentativa de amenizar o quadro, que, no final das contas, se reflete negativamente em seus índices de produtividade. Mas, afinal, o que é real e o que é ficção nos discursos sobre qualidade de vida nas organizações? As medidas propostas são efetivas e sinceras?

Para falar de Qualidade de vida: Verdades e mentiras, Paulo Gaudêncio, um dos grandes nomes da medicina psiquiátrica do país, estará ao lado do diretor da Alcoa América Latina, José Taragano, e do médico e presidente da CPH Health Solutions Ricardo De Marchi, no CONARH 2005 – 31º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas. Confira uma parcela do que ele pretende falar no Transamérica Expo Center, em São Paulo (SP), onde o evento será realizado de 1º a 4 de agosto.

ABRH – Quais são as grandes contradições entre o discurso e a prática sobre a qualidade de vida nas empresas?

PAULO GAUDÊNCIO – O discurso é, em geral, o da valorização, mas a prática é a do desrespeito. Cada vez mais, temos menos pessoas trabalhando e quem trabalha, trabalha mais. A competição faz com que o enxugamento dos quadros seja parte do projeto de todas as empresas.

ABRH – A causa dessas contradições está nas pressões do mundo do trabalho ou é por que o discurso faz parte do marketing das empresas?

PG – Não tenho qualquer dúvida sobre isso. As pressões têm causado essas contradições. Se fosse somente marketing, atingiria apenas as camadas inferiores da instituição. A diretoria teria sua qualidade de vida conservada e os níveis abaixo a teriam comprometida. Não é o que acontece. Eu arrisco dizer que é o contrário: os diretores estão pagando o maior preço. Jamais vou esquecer de uma saída de fábrica que presenciei há alguns anos. Soou o primeiro apito e saiu o pessoal do operacional, o chamado “chão de fábrica”. Brincavam uns com os outros, chutavam latinha. O segundo apito liberou os executivos: cabisbaixos, ombros caídos, carregando a empresa para casa.

ABRH – As empresas têm uma visão distorcida de qualidade de vida para seus funcionários?

PG – Acho que sim. Na realidade, o stress patológico ocorre quando torna crônica uma dificuldade maior que a habilidade. Se isso ocorrer contingencialmente, não há problema. Por exemplo: eu sou promovido e fico durante um certo período com a minha dificuldade maior que a minha habilidade. Passo a ter o eustress, o stress normal, da reação de luta ou de fuga, mas a experiência e o treinamento me ajudarão a aumentar a habilidade. O fato é que não existe contingência que tenha anos de duração. Isso é cronificação.
ABRH – Os programas de qualidade de vida criados pelas e para as empresas têm efeito real sobre as pessoas ou é somente um efeito paliativo?

PG – As empresas têm tido uma atuação principalmente sintomática. A situação estressógena causa sintomas e as empresas focam o combate neles. As academias de ginástica, de tae kwon dô ou yoga são ótimos meios de se combater os sintomas de stress e não são condenáveis. A condenação se faz à sua exclusividade; é fundamental o ataque à etiologia. Se a dificuldade é maior que a habilidade, precisamos aumentar a habilidade com treinamento ou, então, diminuir a dificuldade.

ABRH – O ambiente corporativo tem causado depressão nas pessoas?

PG – Sim, acredito que sim. Mas preciso definir minha visão de depressão. Acho que depressão corresponde à implosão da agressividade. Lembrando algo que é atribuído ao doutor Adib Jatene: “O trabalho não mata, o que mata é a raiva”. A depressão é muito mais causada pelo estilo gerencial do que uma conseqüência do stress.

ABRH – Isso poderá ser revertido?

PG – Poderá. Mas isso só acontecerá quando as empresas finalmente comprovarem que o cuidado com o ser humano é verdadeiramente fator de produtividade. Quando, de verdade, perceberem que o respeito à qualidade de vida de seus colaboradores – da diretoria ao operacional – dá lucro. E isso deverá ser mais do que apenas uma crença. Somente quando se comprovar que, se com sete funcionários tenho uma despesa menor que com dez, por outro lado dez funcionários satisfeitos trarão uma produtividade bem maior que a de sete funcionários estressados. O quadro só será revertido quando se comprovar que essa produtividade é superior à economia feita com o enxugamento de quadros.

Fonte: Conarh




Escrito por Cadu Lemos às 16h05
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